Questões de escrita
Como é a experiência de ver o livro publicado nas estantes das livrarias?
Como é a experiência de publicar um livro? E de publicar um livro por uma editora independente? E de publicar um livro por uma grande editora? E de publicar um segundo livro? E de planejar um terceiro enquanto ainda descobrem o segundo?
Como é a experiência de ver o livro publicado nas estantes das livrarias? Como é a experiência de entrar ao acaso numa livraria e perceber que instintivamente você está procurando seu livro? Como é perceber que ele não está na estante principal dedicada aos mais vendidos? Como é encontrar cinco exemplares do seu livro numa outra prateleira e tentar adivinhar se há uma relação causal entre o posicionamento desses produtos e a qualidade da sua escrita? Como é não saber se estão mesmo vendendo ou simplesmente acumulando poeira?
Como é ter resenhas muito positivas do seu livro publicadas no jornal X? E no Y? E como é perceber que isso não importa porque você ficou obcecado com a ideia de que o livro não foi resenhado no jornal Z? Como é perceber que na real ninguém liga pra jornal tanto assim?
Como é ter que responder a amigos e familiares que não entendem nada do meio literário, quando perguntam como vai o livro? Como é ter uma resposta-padrão bastante genérica (”tá circulando”), elaborada estrategicamente para encerrar qualquer conversa, porque no fundo você sabe que o que eles querem saber é se você ficou rico vendendo livro?
Como é perceber que, ao falar de seus livros, os autores de hoje, seus pares, tratam de questões puramente temáticas? E perceber que essa abordagem possibilita a criação de um curso baseado no livro publicado? Como é perceber que você não tem vontade de falar em temáticas e nem de vender um curso?
Como é ensaiar mentalmente as mesmas quatro ou cinco coisas interessantes que você tem a dizer sobre o livro? E perceber que talvez seja importante ter mais uma ou duas coisas interessantes para dizer? E perceber que talvez, apesar de considerar que escreve coisas interessantes, talvez, talvez, talvez você simplesmente não seja uma pessoa tão interessante, com coisas interessantes a dizer sobre as coisas interessantes que escreveu?
Como você se sente ao perceber que todo mundo ao seu redor segue vomitando opiniões terríveis em espaços de autocuradoria online? Ao perceber que escritores fazem isso em plataformas como o Substack com o único intuito de se fazerem vistos o tempo inteiro? Como você se sente quando está exausto de tanta opinião e mesmo assim cogita escrever um texto de opinião sobre estar cansado de opinião? Como você se sente ao perceber que talvez faça isso com o intuito de se fazer visto e lembrado? Como você se sente ao perceber que somos todos irrelevantes e estamos todos lutando contra a obsolescência?
Como é ouvir dos profissionais do mercado editorial que o que falta a todo autor é encontrar seu público nichado e cativá-lo pelas redes sociais e a partir disso torná-los leitores fiéis e quem sabe vender a eles um novo curso?
Como você se sente não ligando para isso e tornando suas redes um experimento constante? Como você se sente viralizando com um vídeo em que interage com o apresentador Gugu Liberato no red room de Twin Peaks e isso provavelmente não ajuda a vender sequer um exemplar do seu livro?
(Aquele livro, o mencionado na primeira pergunta).
Como você se sente sabendo que será através da visualização desse vídeo ridículo circulando aos milhares que muitos desses espectadores saberão que você existe? E clicarão no seu perfil? E descobrirão que você é escritor? E pensarão meu deus do céu, achei que escritores fossem pessoas sérias? Como é saber que você nunca vai conseguir ser um escritor sério? Como você se sente sabendo que o Tim Bernardes deu like nesse vídeo?
Como você se sente sabendo que todas essas coisas te causam ansiedade? Como é saber que, sim, ok, fazer literatura é algo como uma vocação, mas também uma fonte inesgotável de angústias? E como é ter consciência de que foi você mesmo quem inventou de se meter com isso? Que ninguém botou uma arma na sua cabeça e disse faça literatura? Que não faria a menor diferença se você simplesmente parasse? Que o mundo não espera nada de você e simplesmente não liga se você publicar ou não outro livro? Como você se sente tendo dificuldade de imaginar um futuro a partir desse cenário? Nesse mundo de futuros tão impossíveis? Em que a própria ideia de futuro é uma incerteza?
Angustiado? Aflito? Frustrado?
E vai seguir fazendo? Tudo isso? De novo? E de novo?
Meu deus.
Então cala a boca e não reclama.
Merchan (1): Meu livro Frankito em chamas, vencedor dos prêmios Jacarandá e Mozart Pereira Soares, está à venda nas livrarias (embora não esteja na seção dos mais vendidos) e também pode ser encontrado no site da Todavia e na Amazon. Dia 23/7, estarei falando sobre ele (entre outros assuntos) na FLIP, em Paraty.
Merchan (2): Tem um texto na gaveta? Um projeto de escrita em andamento? Não sabe o que fazer? Estou oferecendo serviços de leitura crítica (para textos em fase de acabamento – ou quase) e acompanhamento de projetos (para textos em qualquer fase de escrita). Meu foco são textos literários (conto, novela, romance) e para o audiovisual (roteiro, argumento). Basta entrar em contato: matheusmedeborg arroba gmail ponto com.




Ótimo texto. Pra mim, só faltou uma questão: quem é Tim Bernardes?
Ô Mateus onde/q horas é sua mesa na Flip?